Existe conduta correta ao lidar com uma crise nacional?
- Daiane Yoko
- Jul 8, 2020
- 3 min read
O que a sociedade Japonesa tem a nos servir como exemplo depois do tsunami de 2011, e como isso pode ser incorporado ao nosso comportamento pessoal e profissional.
Existe um conceito japonês chamado de 「公」(Oyake). Pela semântica pode ser traduzido para público e possui também a conotação de Casa Grande, que era onde as famílias trabalhavam todas juntas em prol de contribuir para o bem da casa.
Podemos traduzir também como o senso de dever público.
O Édito Imperial sobre a Educação prega como ideal: “Em emergência, trabalhar para o bem público com cavalheirismo e coragem ... “.
Imediatamente após a fatalidade, jovens de todo país estavam atendendo ao chamado de convocação das forças militares para começar a trabalhar na recuperação dos danos e operações de resgate. Dos 5.600 reservistas, 1.300 foram convocados.
Na usina nuclear de Fukushima onde ocorreram as explosões de hidrogênio, de 300 a 500 funcionários permaneceram no local por dias para trabalhar na recuperação do local. Recebiam rações de emergência 2x ao dia e dormiam todos juntos enrolados em cobertores.
Os voluntários questionados sobre sua decisão de permanecer no local, alegam que não se perdoariam se não voltassem para ajudar.
- “Eu não me perdoaria” – isto é “cavalheirismo”. E ir para o centro do trabalho consciente dos riscos é “coragem”.
O corpo de bombeiros de Osaka enviou 53 integrantes para dar suporte aos bombeiros de Tokyo. Foram 90 horas contínuas de trabalho de resgate.
Enquanto os bombeiros se deslocavam do posto avançado a 20 km da usina em meio a barulhos ensurdecedores das sirenes de emergência, um grupo de idosos da região se curvaram 90 graus em sinal de reverência, respeito e agradecimento a eles.
Prontamente, outras províncias começaram a deslocar seus reforços com intenção de retribuir outras ajudas já prestadas ou simplesmente pelo simples senso de dever social que é tão enraizado na cultura.

Companhias elétricas, de gás e transportadoras rapidamente trabalharam para a rápida restauração dos serviços principalmente nos locais de emergência.
O gestor responsável pela logística da entrega de alimentos e outros essenciais, relata que a cada entrega eles eram recebidos com vozes de alegria.
Funcionários da Yamato (transportadora) identificaram uma desigualdade no fluxo de entrega destinada aos centros de refúgio e prontamente se voluntariaram para abastecer os centros menores que estavam sofrendo a falta de suprimentos.
Na província de Miyagi, uma concessionária da Toyota foi completamente varrida pela força da água que arrastou todos os carros da loja, impossibilitando qualquer previsão de abertura do comércio. A gerência solicitou aos funcionários que ficassem aguardando em suas casas até a normalização, mas 4 dias depois eles começaram a retornar, os clientes voltaram a comprar e isso mostra a forte cultura que a Toyota gera dentro da cidade.
A rede de agências de automóveis enraizada na sociedade regional faz parte da infraestrutura social que sustenta a vida da população.
Em um shopping AEON em Miyagi, após soar o alarme de que o tsunami estava chegando, o gerente Chiaki Takase de 59 anos, conduziu todos a salvo em meio a nevasca para um local seguro. Não houve nenhuma vítima, graças a resposta de resolução da complexidade da situação. No dia seguinte, quando os funcionários retornaram ao local, encontraram um cenário de vasta destruição.
Os Japoneses possuem muitas palavras que podem ser traduzidas em conceitos como esse da Casa grande, me surpreendo toda vez que aprendo um novo. Essa norma de vida que faz parte do caráter nacional foi a força motora que impulsionou o rápido progresso do Japão na era Meiji e a recuperação do período pós guerra.
Claro que, como todo país, tem seus pontos negativos. Porém toda vez que me deparo com alguma crítica relacionada aos japoneses serem educados de forma robótica, só consigo pensar no quanto isso foi de grande valia para que eles se tornassem a nação que foram e são até hoje.
O sucesso de uma nação nunca dependerá de um governante, se ilude - e muito - quem pensa dessa forma. A nação é feita pelas pessoas que a compõem e que juntas, em um misto de ética, caráter e convenções sociais contribuem na formação de uma grande estrutura de apoio e ajuda mútua.

Fontes consultadas:
1. Jornal Sankei Shinbun, H23.04.19 “Mesmo agarrado a pedras”
2. Jornal Sankei Shinbun, H23.03.31 “Operário da Usina Nuclear: ‘Deixa que nós fazemos’” ; “Recuperação da Usina: Senso de dever de cada um”
3. Jornal Sankei Shinbun, H23.04.03 “A população também em guerra total”
4. Jornal Nikkei Business, H23.04.11 “3.11 País Irredutível”



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